lado nenhum
A limpidez da manhã , a frescura do ar e o canto dos pássaros que o faz vibrar desperta em mm uma vontade, um desejo premente de ir par lado nenhum. Deixo-me ficar, todo o meu ser embebendo-se nesta atmosfera e bebendo-a até á embriaguez .
Meio tonto, meio bêbado, meio alegre, meio ziguezagueando, saindo na ponta dos pés para não acordar a razão e a consciência que ainda dormem a sono solto e por isso ao sono estão presas, visto a minha alma de criança vagabunda, aquela de correr campos e pinhais e bosques e florestas de castanheiros, aquela de roubar fruta pelas vinhas, pelos quintais , pelos pomares. Sim vou para lado nenhum, levo o meu cão comigo, ele conhece o caminho e não precisa de me guiar.
O lado nenhum é giro e engraçado ás vezes, é interessante sempre. Se já lá estiveram sabem como pode ser mas muito pouca gente já lá esteve verdadeiramente.
O lado nenhum tem muitos sítios, há até quem diga ou suponha que tem até todos os sítios possíveis mas são só suposições. Os sítios sucedem-se, uns bonitos, outros menos, outros ainda quase feios mas a gente não diz a ninguém porque mesmo assim são todos bons e fazem-se boa vizinhança sem políticas, sem quezilais, sem incidentes fronteiriços nem diplomáticos. Os sítios são independentes até nessas coisas e indiferentes por direito próprio.
O cão vai marcando os sítios como que a dizer que este ou aquele é especialmente adequado para mijar. São velhos hábitos que lhe ficaram e agora ele brinca ao alquimista transmudando os sítios do lado nenhum em seja lá o que for num faz de conta alegre e despreocupado.
O lado nenhum é mesmo porreiro, divertido até, cheio de coisas de sítios e outras coisas. Se o lado “nenhum” é assim para a próxima vou experimentar o lado “algum” ou o “qualquer lado” que têm por obrigação terem muito mais coisas.
Tudo isto me leva a pensar que a realidade é um poliedro ainda muito mais bizarro e complexo que o paralelepípedo estreloide. Senão vejamos, tirando o “lado nenhum “ temos o “algum lado” o “qualquer lado”, o “lado de lá” e o “lado de cá” o “este lado” e o “outro lado” ao que dizem intimamente relacionado com o “Alem”. É assim um poliedro com muitos lados, uns planos e outros não tanto, obedecendo a um conjunto de geometrias nada euclidianas e das mais fantasistas.
A irrealidade tampem é uma figura geometria mas muito menos complicada, assim como que uma bola de sabão com aquelas corzinhas á superfície e tudo.
Graças a Deus é primavera em todo o lado, o lado florido, até no lado invisível da lua e em todos os sítios também e eu passeio-me pelo lado infinito da Vida onde o meu cão alça a pata aqui e ali apostado como tanta gente em delimitar o infinito, cortá-lo ás fatias, ás talhadas e aos cubanos como os caldos de galinha. Ao meu cão eu desculpo, aos outro nem por isso deixo de desculpar, de facto porque deveria eu esperar mais dos outros que do meu cão?
Estas caminhadas pelo infinito tendem a ser muito solitárias. O cão faz-me companhia, é claro que ele não sabe que passeia no infinito e na realidade ele não passa do lado canino do infinito assim como os homens evoluem no lado humano do mesmo infinito.
Mais um poliedro, este ainda mais sofisticado e labiríntico, o poliedro do infinito, infinitamente facetado, inacabado, incompreensível no seu todo.
Eu, por qualquer razão inexplicável, vivo perdido, eremita solitário no meio de todo este infinito. Por ele ser infinito não o abarco todo e não posso encontrar limites para a minha dor, a minha solidão que também ela tende para o infinito.